Nomenclatura científica e nomes comuns dos seres vivos: o que significa e para que serve?

DESENHO ESPÉCIES DE BUDIÃO

Quem não ficou se perguntando qual o nome de um bicho que nunca tinha visto? Como se chama aquele peixe? Essas são perguntas frequentes que todo biólogo costuma ouvir e a resposta nem sempre é fácil. Acaba que normalmente os biólogos respondem com um nome cabeludo e, geralmente, difícil de entender. O nome científico!

A nomenclatura científica foi proposta pelo naturalista suíço Gaspar Bauhin no século XVII para classificar plantas com características similares e posteriormente desenvolvida e formalizada por Carolous Linnaeus (Carl Nilsson Linnaeus) no século XVIII em seu famoso tratado “Systema Naturae”. Esta obra fundou a base da taxonomia, ciência que estuda e classifica os organismos vivos segundo suas características morfológicas.

O Systema Naturae é um compêndio de diversas regras e normas que indicavam como proceder para realizar uma classificação hierárquica das espécies. A 1a versão foi publicada em 1735, porém, foi apenas na 10a edição (1758) que Lineu propôs a classificação através de uma nomenclatura binomial ou binária. Essa nomenclatura é obrigatoriamente composta por 2 nomes, um que identifica o gênero e um segundo que o qualifica, portanto normalmente um adjetivo, chamado de epíteto específico.

Mas vamos lá, e o que é um gênero e uma espécie para a biologia? Pois o gênero é um nome que define um extenso grupo de organismos (podem ser animais, plantas, bactérias, etc.) que compartilham características morfológicas e funcionais, e portanto com um elevado grau de “parentesco”, similaridade, entre elas. Já as espécies, ainda que não existe um consenso geral do que é uma espécie, são aqueles organismos que pertencem a uma população natural, ou grupos de populações, que estão ou têm o potencial de estarem se reproduzindo e produzindo descendentes férteis (de acordo com Dobzhansky e Mayr).

E porque estamos falando tudo isso? Bom, porquê é daqui que saem os “palavrões” que os biólogos usam para identificar uma espécie em qualquer lugar do mundo. Por ter seu nome em latim ou latinizado e por apresentar essa nomenclatura binomial, todas as espécies do mundo podem ser identificadas à partir de um único nome duplo, como por exemplo o da nossa espécie Homo sapiens, ou do tigre, Panthera tigris, ou do Budião-azul, Scarus trispinosus. Mas, se as pessoas já dão nomes aos animais normalmente, como tigre e budião-azul, porquê dar esse nome difícil e complicado para os organismos?

Bom é aqui que queremos chegar com esse texto. As pessoas nomeiam os animais e plantas, em geral, por um conjunto de características que chamam a atenção e os tornam reconhecíveis, por exemplo: o budião-azul é chamado assim porque ele se parece com os demais peixes chamados de budião e é azul.

BUDIAO AZUL BICO VERDE

Créditos (Imagem B): Randall, J. E. – FishBase

A figura acima mostra os indivíduos A e B conhecidos como budião-azul e o C como bico-verde. Contudo, A e C são a mesma espécie, o Scarus trispinosus, enquanto o B e o Scarus coerulus, uma especie do Caribe. É por esse motivo que conhecer o nome científico é tão importante, para evitar confusões de identificação que os nomes comuns podem levar.

 

 

Mas esses nomes não são constantes, em Pernambuco ele é conhecido como bico-verde e não como budião-azul. Isso ocorre porque ao se alimentar de algas, com o passar do tempo o bico vai ficando esverdeado pelas algas. Além disso, no Caribe, existe um outro peixe que também é um budião e também é azul. E por lá ele é chamado de, adivinhem… budião-azul (Blue Parrotfish). Essas diferenças entre países, estados ou mesmo de uma região para outra, tornaria impossível a comunicação entre os profissionais que trabalham com os organismos vivos, pois, seria impossível saber a qual organismos estão se referindo. A nomenclatura binomial, ainda que complicada, trouxe um grande avanço para as ciências da vida como um todo, permitindo que através da comunicação científica se fala-se sempre a mesma língua.

Mas e como ficam os nomes vulgares ou populares? Esses nomes são dados às espécies pelas pessoas que, em geral, vivem ou moram nos locais onde aquele organismo existe, e são transmitidos de pai para filho, de geração em geração, ao longo do tempo. Estes nomes são muito importantes para a cultura local e para o próprio reconhecimento de tradições de uma comunidade; fazem parte do conhecimento local de uma comunidade. Eles devem ser preservados e transmitidos como parte da cultura e do folclore de um povo, pois são parte de sua identidade.

No caso dos budiões, os nomes populares são uma questão bastante complexa. Como esses peixes apresentam características diferentes ao longo da vida, a mesma espécie de budião pode receber distintos nomes em função da fase de vida em que se encontra:

A figura acima mostra a mesma espécie de budião, o Sparisoma frondosum, porém em duas fases distintas, conhecida como fase inicial (A) e fase terminal (B). Muitas pessoas acreditam que são duas espécies diferentes, mas não são.

Então foi que um pequeno dilema surgiu para a equipe do projeto. Como iremos nos comunicar com a sociedade para informar das ações do projeto com tantos nomes comuns sendo usados Brasil a fora? Dessa forma, buscamos informação nas diversas localidades em que o projeto atua para conseguir compilar essa tabela:

tabela com nomes populares dos budiões

Para facilitar a comunicação do projeto, definimos um nome único (nome comum que será adotado pelo projeto) que será utilizado em todas as ações de divulgação do projeto, porém, seguindo nossa ideia de respeito a cultura e ao conhecimento tradicional das comunidades pesqueiras da costa brasileira, todos os nossos materiais serão adaptados para serem utilizados com os nomes populares utilizados em cada uma das localidades do projeto Budiões. Desta forma, seremos capazes de entender os distintos usos dos nomes comuns das espécies ao longo da costa, assim como promover um entendimento da equipe do projeto com os diversos atores sociais que o projeto busca atender e envolver.

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